• Aline Amaro da Silva

Recensão do livro Ciberteologia

SPADARO, Antonio. Ciberteologia: Pensar o Cristianismo nos tempos da rede. Tradução: Cacilda Rainho Ferrante. São Paulo: Paulinas, 2012. 183 pgs.





Primeiro sacerdote italiano a criar uma conta no Twitter, o jesuíta Antonio Spadaro é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana e professor desta instituição. Também é diretor da revista “La Civiltá Cattolica” e consultor dos Pontifícios Conselhos da Cultura e das Comunicações Sociais. Autor de diversas obras sobre cultura contemporânea e mídias digitais, Spadaro recebeu a missão dos bispos italianos de desenvolver um estudo sobre o impacto da cultura digital nos temas clássicos da teologia em vista do Congresso da Conferência Episcopal Italiana de 2010. A palestra “Testemunhos Digitais” foi o ponto de partida de um pensamento sobre a relação da teologia sistemática com a internet que o autor considera ainda em fase embrionária. Para expandir a reflexão, Spadaro criou o blog “Cyberteologia.it” em janeiro de 2011, e ano seguinte publicou o livro que vamos analisar nessa recensão Cyberteologia: Pensare il cristianesimo al tempo della rete.

Existem, desde a invenção da internet, inúmeros trabalhos científicos na área de sociologia e em áreas afins sobre o fenômeno da cibercultura. De 2002 até hoje, alguns documentos da Igreja orientam, a nível pastoral, como os cristãos devem utilizar este novo meio de comunicação. Ao longo do pontificado de Bento XVI, em suas mensagens para o Dia Mundial das Comunicações, houve uma crescente compreensão e um processo de descoberta da identidade e essência da internet por parte da Igreja. Dividido em seis capítulos, a relevância do livro “Ciberteologia” está no seu pioneirismo em analisar os pontos-chaves da teologia – antropologia, eclesiologia, moral, liturgia, sacramentos, graça – sob o prisma das mudanças que a rede trouxe para todos os campos da sociedade inclusive para o fazer teológico.


No primeiro capítulo, “Internet entre teologia e tecnologia”, o autor coloca a rede como um lugar eclesiológico, pois afirma que a Igreja está naturalmente presente onde o homem desenvolve a sua capacidade de conhecimento e de relações, desde sua origem ela tem no anúncio de uma Pessoa e nas relações de comunhão os dois pilares fundamentais de sua existência. Além disso, ressalta a natureza da rede não como um novo meio a ser utilizado, mas um lugar a ser habitado, onde o homem pode responder ao chamado de Deus para transformar a criação e a si mesmo. Assim, as novas tecnologias devem ser vistas como verdadeiros dons para a humanidade e a cibercultura como um autêntico alimento do pensamento teológico. Ainda nessa parte, Spadaro traça o conceito de Ciberteologia – a inteligência da fé nos tempos da rede. A reflexão ciberteológica é um conhecimento que nasce da experiência da fé que corresponde na teologia à fórmula “fides quarens intellectum”, a fé que busca a inteligência, que busca compreender. Por isso, a ciberteologia é teologia e não mais um tipo de estudo sociológico sobre a religiosidade na internet, mas “resultado da fé que libera de si mesma um impulso cognitivo num tempo em que a lógica da rede assinala o modo de pensar, conhecer, comunicar, viver” (p.41).


“O homem decodificador e o programa de busca de Deus” é o título do segundo tópico da obra que aborda a metamorfose antropológica na era digital, especialmente no modo de se relacionar com os outros, na forma como pensamos e na vivência da fé. Já o terceiro capítulo faz analogia entre “Corpo Místico” e “Corpo Conectivo”, mostrando que o sentido existencial da internet é a comunhão entre as pessoas, pois a “Internet é sentir-se parte de um todo” (p.62). Spadaro alerta que se a rede, chamada a conectar, acaba por isolar, então está traindo sua própria essência, por isso a importância do testemunho cristão de viver uma real unidade no ciberespaço.

Na seção “Ética hacker e visão cristã”, o autor faz uma interessante observação sobre a perspectiva de vida hacker e constata que o agir moral destes pode adquirir status profético para o mundo de hoje que está voltado para a lógica do lucro, a fim de lembrar que o coração humano anseia por um mundo em que reine o amor, a fraternidade entre os povos e onde os dons sejam compartilhados.


O verdadeiro núcleo problemático do quinto capítulo, “Liturgia, sacramentos e presença virtual”, não é se pode ou não ocorrer um evento litúrgico no ciberespaço. Spadaro refuta essa ideia. O que ele enfatiza é a dificuldade de se definir um status ontológico para a existência “virtual”. Pois, apesar de prescindir da presença física, ela oferece uma presença social que não é um simples produto da consciência, nem tampouco uma realidade objetiva ordinária. Assim, abre-se diante de nós um mundo intermediário, híbrido, que, segundo o autor, põe em discussão a ‘metafísica da presença’ e cuja ontologia deveria ser indagada melhor para uma compreensão teológica.

“Os desafios tecnológicos do conhecimento coletivo” é o título do último capítulo do livro Ciberteologia. Nele, o teólogo italiano mostra que a teologia também é desafiada a descobrir a natureza e o papel da rede para a humanidade. Spadaro percebe que a internet tem o potencial de proporcionar a vocação universal da humanidade: a comunhão. A rede se torna assim uma etapa do caminho da humanidade movido, solicitado e orientado por Deus. Neste sentido, o autor acredita que o pensamento de Pierre Teilhard de Chardin, anterior a cibercultura, possui um tom profético, pois ao teologizar sobre o progresso tecnológico de sua época ele teoriza a noosfera que podemos considerar uma prefigura da rede. Em sua teologia, Teilhard dá um embasamento de fé às próprias dinâmicas do espaço antropológico que é a rede como parte do único “milieu divin” (ambiente divino) que é o nosso mundo.


Ainda que em fase inicial, o jesuíta italiano lança a Ciberteologia como uma nova forma de teologia sistemática, elevando a internet, mesmo que implicitamente, ao nível de lugar teológico. Embora seja considerada no momento mais um caso de teologia contextual, por fim, não será suficiente essa concepção. Pois, o contexto da rede tende a não ser isolável como um contexto específico e determinado, mas a ser integrado no fluxo de nossa existência ordinária. Mais do que achar respostas, a maior contribuição de Antonio Spadaro é incitar questões sobre nossa vida, cultura e fé que o teólogo contemporâneo deve se debruçar para que sua voz ecoe na aldeia global que é o nosso mundo de hoje. Um livro de leitura fluída, linguagem acessível (com exceção daqueles que não estão ainda acostumados com linguagem digital) e com conteúdo abrangente. A obra “Ciberteologia” é indicado para profissionais das áreas de teologia, comunicação e cibercultura, ou qualquer pessoa que queira entender melhor a sua humanidade, a sua fé e o seu mundo.


Dra. Aline Amaro da Silva

PUCRS


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